quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Boi Neon, no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema


A expectativa gerada a partir da conquista pelo filme Boi Neon do prêmio da mostra Horizontes no Festival de Veneza, na Itália, é plenamente satisfeita: o filme dirigido por Gabriel Mascaro deve ser não somente o melhor filme lançado este ano no Brasil, senão também um dos melhores dos últimos anos.
O filme mantém-se em alto nível em todos os seus elementos: a impecável atuação do conjunto de atores, o excelente roteiro, a fotografia que acompanha a narrativa sem tentar assumir qualquer protagonismo, a trilha sonora, a direção de arte e, acima de tudo, a cuidadosa construção do desenrolar da trama e o seu encerramento.
Boi Neon explora muito bem as tensões entre os personagens decorrentes da própria ambivalência de sua atividade de trabalho: entre a manutenção do gado e a vida na estrada como artistas circenses, a história vive de uma série de articulações, umas possíveis, outras imaginárias, outras concretas, que a moldura oferecida pela confluência entre o ambiente rural e o mundo do espetáculo oferece: é daí, desta ambiguidade, que surge a riqueza não somente do personagem central, interpretado por Juliano Cazarré, o vaqueiro que gosta de corte e costura, como de todo o conjunto formado pelas figuras coadjuvantes.
Em comum com Big Jato, o outro filme exibido nesta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema cuja história se desenrola no nordeste brasileiro fora das metrópoles, o filme apresenta o cotidiano de empreendedores autônomos, à margem do processo mais recente de industrialização e modernização, que aparece em distintas intensidades como um pano de fundo de contraposição das histórias. Mas apenas isso os dois filmes têm em comum. No filme dirigido por Gabriel Mascaro a economia dos meios e a precisão da inflexão dramática no meio da trama são tão bem calibradas que o diretor constrói sutilmente a crescente ansiedade do público em direção ao desfecho do Boi Neon.
E se há algo contracultural neste filme em relação aos temas amplamente debatidos no país hoje, o Boi Neon pode também ser visto como uma espécie de manifesto anti-queer. E aí, é um filme deliciosamente irônico, algo mais uma vez apenas possível por saber explorar magistral e sutilmente as ambivalências e ambiguidades. Imperdível.

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